O Ministro da Fazenda no Flow: Uma Conversa Sobre Economia, Reformas e Desafios
No podcast Flow, Igor 3K recebeu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma conversa ampla sobre os rumos da economia brasileira, os desafios de gerenciar as contas públicas e os recentes avanços econômicos do país. Entre dados sobre o PIB, explicações sobre impostos e reflexões sobre a polarização política, o bate-papo revelou não apenas aspectos técnicos da economia, mas também os bastidores do trabalho no Ministério da Fazenda.
O Brasil que Cresce: PIB e os Resultados Econômicos
Logo no início da conversa, o crescimento do PIB brasileiro de 3,4% em 2024 foi destacado como uma conquista significativa. Haddad contextualizou esse resultado como parte de uma recuperação após o que chamou de "década ruim" entre 2013-2022.
"O Brasil durante muito tempo, eu diria 2013, 2014 até 2022, teve uma década desarrumada. Em parte por medidas equivocadas, mas também por causa da polarização política", explicou Haddad, destacando que o país começou a superar essa situação quando as forças políticas perceberam que certas questões pertencem ao Estado brasileiro e não devem ser tratadas como disputa partidária.
O ministro mostrou otimismo com a previsão de crescimento para 2025, estimada pelo Ministério da Fazenda em 2,5%. Segundo ele, esse crescimento mais moderado se deve à necessidade de calibrar a economia para controlar a inflação, já que a demanda tem crescido mais rapidamente que a oferta em alguns setores.
"As famílias estão comprando mais e se a oferta não acompanha o crescimento da demanda, você tem um ajuste no preço, que é o que está acontecendo em alguns produtos agora", analisou.
Desmistificando a "Taxa do PIX" e os Impostos na Importação
Um dos momentos mais interessantes da conversa foi quando Haddad abordou o que chamou de "fake news" sobre a suposta "taxa do PIX" e os impostos em sites de marketplace. O ministro esclareceu que nunca houve intenção do atual governo de taxar o PIX, explicando que quem defendia essa ideia era o ministro da economia do governo anterior.
"O atual governo nunca cogitou [taxar o PIX], porque tudo que eu cogito fazer, anuncio antes", afirmou.
Sobre os impostos nos marketplaces importados, Haddad fez questão de esclarecer dois pontos: o ICMS é um imposto estadual cobrado por todos os governadores, e o imposto de importação foi criado pelo Congresso Nacional com aprovação unânime, inclusive do partido do ex-presidente Bolsonaro.
"Quando você fala uma mentira repetidamente, lamentavelmente nós estamos num ambiente virtual que não tem filtro. É muito difícil você combater uma fake news quando você tem um exército pago", lamentou o ministro.
O Monitoramento de Transações Financeiras e o Combate ao Crime
Um tema que gerou polêmica e foi esclarecido por Haddad foi a questão do monitoramento de transações financeiras. Ele explicou que o sistema existe desde o final dos anos 90 e que a recente mudança, na verdade, aumentou o valor mínimo para monitoramento de R$ 2.000 para R$ 5.000, reduzindo a quantidade de informações que a Receita Federal recebe.
"Tem muito crime organizado que está usando algumas fintechs para lavar dinheiro, e a Receita aproveitou para falar para as fintechs: 'olha, vocês vão ter que informar também'", explicou Haddad, ressaltando que o objetivo não é "achar o cara que está vendendo bolo na feira", mas sim combater grandes volumes de dinheiro movimentados pelo crime organizado.
O ministro ainda questionou o interesse por trás da desinformação sobre o tema:
"O que está por trás disso? Alguém não quer ser encontrado."
A Reforma Tributária: Um Marco Histórico
A reforma tributária foi destacada como um dos grandes feitos da gestão atual. Haddad a classificou como "a maior reforma tributária da história do Brasil" e "a primeira em regime democrático".
"O Brasil hoje tem um dos 10 piores sistemas tributários do mundo. A previsão dos organismos internacionais é que nós vamos estar entre os primeiros regimes tributários do mundo", projetou o ministro, explicando que a reforma, que entrará em vigor em 2027, trará benefícios como a desoneração de investimentos, desoneração das exportações e o cashback para pessoas de baixa renda.
Fernando Haddad reconheceu que a proposta aprovada tem diferenças em relação ao projeto original, mas garantiu que "a arquitetura da coisa está intacta". Para ele, foi um "milagre" conseguir aprovar uma reforma dessa magnitude em um contexto político tão polarizado.
"São 40 anos que as pessoas tentaram fazer essa reforma. Quando você coloca o interesse do país acima [das disputas] e fala: 'vou para a disputa aqui ou ali num detalhe, mas vamos seguir juntos nessa pegada'... você vê o país mudar", refletiu.
O Arcabouço Fiscal e o Equilíbrio das Contas
Outro tema central da conversa foi o arcabouço fiscal, que segundo Haddad recuperou os investimentos em saúde e educação que haviam sido bloqueados pelo antigo teto de gastos. O ministro explicou que o arcabouço foi criado para durar uma década, mas pode receber ajustes durante sua vigência.
"No ano passado, nós alteramos algumas políticas. Eu fui ao presidente Lula e falei: 'preciso fazer alguns ajustes para manter o arcabouço, para fortalecer o arcabouço, porque se essas despesas continuarem crescendo no ritmo que estão, o arcabouço vai desabar como o teto de gastos desabou'", relatou.
Haddad defendeu que é possível fazer um ajuste nas contas públicas sem medidas recessivas ou que prejudiquem os mais vulneráveis:
"Eu acredito piamente que o Brasil precisa de um ajuste nas suas contas públicas, e acredito que isso não precisa ser um ajuste recessivo, que faça cair o peso do ajuste no ombro de quem mais precisa do Estado."
A Política Externa e os Desafios Internacionais
Sobre a política externa, Haddad comentou as relações com Estados Unidos e China, especialmente no contexto da eleição de Donald Trump. O ministro mostrou otimismo quanto à capacidade do Brasil de manter boas relações diplomáticas mesmo com mudanças políticas em outros países.
"O Brasil está numa posição favorável. Nós estamos com uma aproximação com a China excelente, relações bilaterais não podiam ser melhores, acabamos de fechar um acordo União Europeia-Mercosul que tem tudo para caminhar", afirmou.
Haddad destacou o papel do presidente Lula nas relações internacionais, chamando-o de "um ativo para o Brasil" nesse campo.
"Ele realmente surfa na onda internacional como poucos estadistas que eu conheço", disse, lembrando que Lula manteve boas relações com presidentes republicanos no passado.
Os Bastidores do Trabalho no Ministério
Em um momento mais pessoal da conversa, Haddad compartilhou como lida com as pressões do cargo e as críticas constantes.
"Às vezes, no prazo de três meses, você vai do céu ao inferno. Acabei de aprovar a reforma tributária e os caras estão me cutucando com esse negócio que é mentira", desabafou.
O ministro contou que precisou aprender a separar a vida profissional da pessoal:
"Você vai se calejando e vai aprendendo a se proteger espiritualmente. Tenho algumas atividades dedicadas à minha integridade física e espiritual. Tenho minha hora de leitura, minha hora de ginástica, minha hora de família."
Sobre divergências dentro do governo, Haddad elogiou a postura da ministra Gleisi Hoffmann, recém-nomeada para a Secretaria de Relações Institucionais:
"A Gleisi é muito frontal. Quando ela pensa diferente de você, ela não planta uma notícia no jornal, ela fala contigo. Essa prática do off para você espetar alguém... não é mais fácil você logo dizer o que você pensa e acabou o assunto?"
O Futuro e os Desafios Tecnológicos
Ao final da conversa, o tema da inteligência artificial surgiu como um desafio para o futuro. Haddad reconheceu que ninguém está totalmente preparado para o impacto que essa tecnologia pode ter no mercado de trabalho.
"O mundo inteiro voltou a discutir jornada de trabalho. Se a inteligência artificial vai fazer uma parte do que a gente faz, eu preciso trabalhar seis dias por semana? Talvez não precise", refletiu.
O ministro comparou a situação atual com outras revoluções tecnológicas do passado, como a mecanização da agricultura:
"No curso de uma geração, a quantidade de pessoas que cortava cana na mão... hoje você tem a mecanização da colheita. Tecnologias engolirão empregos, foram engolindo, mas outros foram gerados."
Para Haddad, o problema não está no desenvolvimento da tecnologia em si, mas nas relações sociais:
"O problema está nas relações sociais. O que você vai fazer com essa tecnologia? Você vai civilizar as relações sociais? Vai democratizar o acesso ao conhecimento? Vai emancipar as pessoas com essa tecnologia?"
Fonte: Flow Podcast